Quando a filha do técnico em fibra ótica Antonio Carlos Medrado, 37, nasceu há 11 meses, a posição dela na fila da creche paulistana assustou: 67º lugar. A vaga só veio após a prefeitura passar a permitir um segundo endereço no cadastro das crianças —no caso dele, o de um primo que vive na região central, onde a fila é menor.
Todos os dias, o morador do Jabaquara (zona sul) deixa a filha numa unidade municipal na Bela Vista (centro) antes de ir para o trabalho, na Vila Mariana (região sul), a seis pontos de metrô de casa.
A mulher dele, ao sair do trabalho perto do metrô Conceição (zona sul), e estaria a uma estação de metrô de onde vive, busca a criança e volta para casa. “É difícil, mas não tem outro jeito”, diz Medrado.
Apesar dos quilômetros extras que percorrem diariamente, eles tiveram mais sorte do que milhares de pais de crianças até dois anos ainda na fila. Da demanda atual de cerca de 70 mil vagas, 65 mil são de bebês de até dois anos. O resto da fila é para crianças de até 3 anos e 11 meses.
Resolver a demanda nessa faixa etária é o gargalo da gestão Bruno Covas (PSDB), que lançou nesta terça (12) o Mais Creche, um programa para contratar vagas avulsas em unidades particulares. Pelo projeto, crianças em situação de vulnerabilidade poderão obter vagas em escolas particulares com valor de até R$ 727 por mês — o máximo repassado às unidades conveniadas.

“Praticamente universalizamos o atendimento em creches para crianças com mais de dois anos. A nossa principal demanda está nos berçários, que atendem crianças com até 1 ano e 11 meses”, afirmou o secretário municipal de Educação, Bruno Caetano.

Entre os principais obstáculos está a dificuldade de planejar as vagas em cada uma das regiões onde nascem as crianças. O primeiro ano dos bebês é o maior problema: representa 50 mil dos 65 mil na fila.
Além de nascimentos, novas ocupações e filhos de imigrantes exemplificam a dificuldade de se prever vagas para bebês.

A prefeitura quer usar o programa para impulsionar a criação de 30 mil vagas —número que falta para atingir a meta da gestão de criar 85 mil vagas.

A maior parte da demanda, sobretudo para os bebês, está na periferia. Na lista para crianças de até um ano, por exemplo, a maior fila está na diretoria regional do Campo Limpo (11.327), seguida da Capela do Socorro (8.167), ambas no extremo sul da capital.

O resultado disso é que muitas mulheres param de trabalhar para cuidar das crianças ou são obrigadas a deixá-las em creches improvisadas.

Moradora da região do Jardim Ângela, na zona sul, Carolyne Gomes , 22, aguarda há quatro meses uma vaga para o filho de sete meses. “Meu medo é conseguir um emprego e a vaga de creche não sair”, diz ela, que é cuidadora de idosos.

O ritmo atual não lhe dá esperança e conseguir tão cedo. “Ele estava na 100ª posição, fiquei até feliz pensando que conseguiria. Mas, quando eu vejo, ele caiu para 208º”.

O Mais Creche pedirá comprovação de que a criança está em situação vulnerável.

O projeto precisa ser aprovado pela Câmara Municipal, onde o Executivo criou atrito diante de iniciativas similares dos vereadores Rinaldi Digilio (PRB) e Janaína Lima (NOVO).

Para o advogado Rubens Naves, membro do comitê de monitoramento de educação infantil do Tribunal de Justiça, a prefeitura deveria criar métodos de monitoramento mais eficazes —fazer busca ativa para descobrir a demanda, em vez de esperar os pedidos de matrícula.

Naves, que também é conselheiro da fundação Abrinq (de defesa dos direitos da criança), diz que é importante que o Mais Creche seja apenas provisório, como a prefeitura promete.

Ele cita avanços em abrangência e qualidade devido à continuidade da política de expansão de vagas por diferentes gestões. Assumir o novo modelo como definitivo seria arriscar um retrocesso, pois é mais difícil fiscalizar essas unidades particulares.

A prefeitura não informa o histórico da fila relativa apenas aos bebês de até dois anos. No geral, as vagas vêm em amplo crescimento há anos.

Desde dezembro de 2013, na gestão Fernando Haddad, até setembro as vagas saltaram de 214.460 para 338.819. O modelo que mais contribuiu para o salto, porém, foi o de escolas conveniadas, hoje sob investigação devido à descoberta de uma “máfia das creches”.

Segundo a atual gestão, o Mais Creche será emergencial e atenderá no máximo 10% das matrículas vigentes.

A maior aposta é abrir CEUs (Centros Educacionais Unificados) que terão apenas vagas para educação infantil, sem incluir o ensino fundamental.

A ideia é aproveitar melhor os espaços para atender a demanda para as crianças menores, ofertando 3.200 vagas em creche e 2.800 para ensino infantil (a partir dos 4 anos).  

338 mil

Crianças matriculadas em setembro em São Paulo

70 mil

Vagas é a demanda aproximada de creche na cidade de SP

65 mil

Crianças até 2 anos na fila

214 mil

Matriculados em dezembro de 2013

11 mil

Crianças na fila de berçário 1 da diretoria de ensino do Campo Limpo, a maior da cidade

R$ 727

Valor máximo que a prefeitura repassará a unidades pela compra avulsa de vagas

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