Quase tudo se troca ou se compartilha na cracolândia, região central de São Paulo. Cachimbo, cigarro, bebida, barraca. No meio do fluxo, local em que se aglomeram os usuários de drogas, atualmente na alameda Cleveland, a vida é comunitária. Por ali, não há quarentena ou ações visíveis do poder público contra a disseminação do novo coronavírus, dizem moradores e voluntários.

“Até ontem [quarta-feira] não tinha ninguém usando máscara aqui. Fui até o fluxo para ver minha filha e ninguém está falando sobre isso”, diz Janaína Xavier, 40, ex-usuária que há mais de dez anos vive o cotidiano da cracolândia.

Grávida de cinco meses, ela recebeu orientação médica para não sair de casa, um pequeno apartamento, a duas quadras do fluxo, que divide com o marido e quatro de seus oito filhos. Mãe de uma jovem dependente, ela se tornou uma espécie de liderança comunitária informal.

“Todo mundo aqui está mais preocupado com a questão da moradia do que com a doença”, diz ela.
O número de pessoas na cracolândia é variável e atinge o pico durante a noite. Estudo da Uniad (Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas) da Unifesp aponta que em 2019 mais de 1.800 pessoas passavam por dia no local.

De acordo com a pesquisa, essa população se move durante o dia: 57% dos usuários frequentam outros locais do centro de São Paulo, como o Minhocão, a praça da República e avenida Paulista

“As pessoas acham que é tudo igual quem está lá, mas não é. Está cheio de grávidas e tem até gente idosa”, diz Janaína.

Para a antropóloga Roberta Costa, que estudou a dinâmica da cracolândia em seu mestrado e faz parte do coletivo Craco Resiste, a única presença visível do poder público no local se dá pela violência, e essa população tende a crescer com os problemas que virão com o desemprego que a pandemia pode causar.
“É uma região onde não existe uma torneira para que os usuários possam tomar água ou lavar as mãos”, diz a antropóloga. “Com certeza o coronavírus terá um reflexo forte na cracolândia.”

Para tentar diminuir esse impacto, o centro de convivência É de Lei, que atua com redução de danos a usuários de drogas, deve fazer uma ação no sábado (21) na região.

A ONG pede que sejam feitas doações de produtos de higiene como sabonetes, álcool gel e pacotes de lenço de papel que serão doados no local.

Segundo a gestão municipal, a população de rua em São Paulo chegou a 24.344 pessoas em 2019, um salto de 53% em quatro anos. Em 2015, as pessoas nessa situação somavam 15,9 mil.

Desse total, 7.002 pessoas têm 50 anos ou mais, também de acordo com a prefeitura. Pouco menos da metade desse contingente tem 60 anos ou mais. Além de estarem mais expostas a uma série de doenças, as pessoas nessas faixas etárias têm maior risco de morte pelo coronavírus.

Parte dessa população, incluindo idosos, dorme em albergues. Uma das orientações do governo do estado é que pessoas de 50 anos ou mais evitem aglomerações.

Para tentar contornar essa situação, o padre Julio Lancelloti, da Pastoral do Povo de Rua, lançou um abaixo-assinado para que a prefeitura forneça kits com álcool em gel e produtos de higiene, além de abrir espaços públicos para o acolhimento de moradores de rua durante a pandemia.

De acordo com a prefeitura, desde 2017, quando teve início o Programa Redenção, as equipes do Redenção na Rua fizeram até o dia 10 deste mês 49.215 abordagens, 11.750 atendimentos médicos, 21.229 atendimentos de enfermagem e 8.255 encaminhamentos para a rede de assistência social.

A gestão Bruno Covas (PSDB) afirma, em nota, que a Secretaria Municipal de Saúde fez a capacitação dos profissionais das unidades básicas de saúde e intensificou a abordagens às pessoas em situação de rua. A orientação, diz a administração municipal, é que após a identificação de caso suspeito para o Covid-19, seja feita uma pesquisa sobre onde essa pessoa dorme e circula para identificar contatos e possíveis novos suspeitos. Em caso de maior gravidade, o Samu é acionado.

Segundo a prefeitura, a equipe do Serviço Especializado de Abordagem Social, composta por 600 orientadores, também intensificará as orientações nos cuidados de contágio do vírus. “A equipe realiza busca 24 horas por dia para identificar pessoas ou famílias em situação de rua e oferecer acolhimento na rede.”

A Secretaria de Assistência Social e Desenvolvimento oferece 134 serviços específicos para população em situação de rua. Desses, 89 são voltados ao acolhimento com 17,2 mil vagas.
A pasta também oferece dez núcleos de convivência para pessoas em situação de rua, com 3.172 vagas. Neles são oferecidos refeições, acesso a banheiros e kits de higiene para que possam tomar banho e receber as orientações.

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