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Um roteiro cinematográfico. Foi assim que os policiais responsáveis pela investigação do assalto ao aeroporto Quero-Quero, em Blumenau, descreveram o caso confirmado como o maior roubo da história de Santa Catarina. Um crime arquitetado pelos mesmos envolvidos em grandes assaltos em outros Estados do Brasil e até mesmo um roubo de R$ 100 milhões no Paraguai, além do violento assalto ao aeroporto de Viracopos, em Campinas (SP), em outubro do ano passado.

Os detalhes sobre a ação em Blumenau foram divulgados pela Polícia Civil nesta segunda-feira (13), quase 10 meses após o crime que deixou dois vigilantes feridos e causou a morte de uma funcionária da empresa vizinha ao aeroporto. Com a deflagração da Operação Aeroporto 1, a polícia indiciou oito pessoas pelo crime e confirmou a prisão de cinco. Outras sete pessoas teriam participado do assalto e ainda aguardam identificação.

O caso é considerado o maior da história de SC não somente pelo valor roubado — R$ 9,8 milhões —, mas também pela violência e planejamento da ação. Os assaltantes entraram no aeroporto utilizando dois carros de luxo blindados. Usavam armas pesadas: oito fuzis AK-47 — arma de origem russa que não é usada por nenhum órgão brasileiro — e até mesmo uma metralhadora de calibre .50 usada no combate antiaéreo e capaz de perfurar tanques de guerra, um arma de uso exclusivo das Forças Armadas Brasileiras. Foram da metralhadora .50 os 15 tiros que atravessaram o carro forte e feriram os dois vigilantes da empresa de transporte de valores, enquanto Edivania Oliveira, 22 anos, que trabalhava no galpão ao lado do aeroporto, foi atingida por um tiro da AK-47 que invadiu a empresa vizinha e a acertou. A morte de Edivania faz com que os envolvidos respondam também por latrocínio.

O planejamento

Segundo o delegado Anselmo Cruz, da Divisão de Roubos e Antissequestros da Diretoria Estadual de Investigações Criminais (Deic), os assaltantes planejaram o crime por pelo menos seis meses. Alugaram seis imóveis em Blumenau e outras cidades, inclusive uma casa em um morro ao lado do aeroporto, o que dava aos assaltantes vista da pista e a possibilidade de filmar por meses toda a operação de transporte de valores que ocorre no Quero-Quero.

— Os assaltantes começaram a preparar a ação entre agosto e setembro de 2018. Um dos presos que era funcionário da empresa de transportes passava informações desde setembro. Houve um investimento de, pelo menos, R$ 800 mil para alugar os imóveis, comprar equipamentos, carros, e manter as pessoas. Eles pagavam diárias para sustentar essas pessoas por meses em Blumenau, Penha, Ilhota — explicou o delegado Anselmo Cruz.

Na logística do assalto, o grupo fugiu de Blumenau em uma ambulância e depois usou um caminhão de lixo para levar o dinheiro até São Paulo. Suspeita-se, inclusive, de que o mesmo caminhão tenha sido usado no assalto em Campinas meses depois. Em São Paulo o dinheiro passou para uma fase seguinte da operação, de evasão do fruto do roubo para outros países e lavagem de dinheiro. Apenas uma pequena quantia dos R$ 9,8 milhões foi recuperada até agora.

Um quebra-cabeças entre vários Estados

A investigação da Polícia Civil ao longo dos 10 meses envolveu policiais em várias cidades de Santa Catarina e em outros Estados do Brasil, juntando peças deixadas pela quadrilha em outros roubos.

— Foram equipes diferentes, com uma soma de onde não pode se perder as informações. Todo dado, todo elemento, ele precisa ser colhido, ser analisado, para ver se é uma peça que se encaixa nesse quebra-cabeças. Estamos falando de vários criminosos, por vários meses, em várias cidades de SC e agindo fora do Estado. Isso torna complexa a investigação, porque podemos ter peças no interior de São Paulo, no aeroporto de Blumenau, no quintal de uma casa alugada, na investigação de outro assalto em Campinas, em Goiás, no Paraguai. Isso requer muita informação que precisa ser analisada por muitas pessoas — avaliou o delegado Cruz.

Das cinco pessoas presas até agora, apenas duas foram detidas em Santa Catarina. O arquiteto dos assaltos foi detido em novembro em Caruaru (PE), e na semana passada outros dois envolvidos foram presos no Paraná e em São Paulo.

Relação com outros crimes

Além do assalto ao aeroporto de Blumenau, a região do Vale do Itajaí foi cenário de uma série de roubos violentos em 2019. Mirim Doce, Vidal Ramos, Penha e Blumenau viram ações envolvendo quadrilhas especializadas e fortemente armadas em agências bancárias. Segundo o delegado Anselmo Cruz, cada um dos crimes foi realizado por uma quadrilha diferente. O que, por um lado, aponta que as quadrilhas não voltam a repetir os assaltos no Estado, mas também mostra como a região é visada por criminosos de outros lugares do Brasil.

— No país, no cenário nacional, tem esse registro de ações criminosas em cidades pequenas por causa do baixo número de efetivo policial. Não se pode querer que numa cidade de 2, 3 mil habitantes, se tenha um efetivo de 100 policiais. Blumenau não é cidade pequena mas teve ações violentas, mas ali é uma questão de movimentação financeira, mais alvos. Infelizmente são quadrilhas que estão sempre tentando mapear ações em diferentes lugares do país. É aquele trabalho de informação, do contato que conhece alguém que pode conseguir um dado importante, alguma situação que favoreça a atuação criminosa. Por isso é importante a população ficar atenta a esse tipo de movimentação suspeita — explicou o delegado.

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