O talento na cozinha herdado da mãe e da avó foi o que garantiu a Altair Cláudio Gonçalves, 31, voltar ao mercado de trabalho. 

Morador do Itaim Paulista, no extremo leste de São Paulo, ele perdeu o emprego de atendente em uma empresa de telecomunicações. Foi quando decidiu abrir o próprio negócio: uma boleria caseira na garagem de casa. 

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Embora tenha aprendido a fazer bolo com a mãe, Altair afirma que tudo começou quando uma amiga disse a ele sobre um curso gratuito, perto de casa, para se profissionalizar na área. 

“Não conhecia a escola, mas acreditei que daria certo. Eu tinha um aluguel para pagar e outras contas que ficaram, e só a minha esposa trabalhava”, lembra Gonçalves. 

Crédito: Danielle Lobato/Agência MuralMorador do Itaim Paulista apostou nos bolos após perder o emprego

Mas não foi só Altair que, no Itaim Paulista, perdeu o emprego e teve de apostar no próprio negócio. Ele é um dos 13 mil microempreendedores cadastrados no distrito. Na região, houve um aumento de 39,6% em 2019, comparado ao ano anterior, de acordo com a Secretaria Municipal do Desenvolvimento Econômico e Trabalho. 

O aumento foi maior do que na região metropolitana, onde houve um salto de 25% em 2019 – são 1,2 milhão de pessoas enquadradas no sistema.

Para começar a empreitada, o investimento foi de R$ 1.000, que pagou com parte da rescisão do emprego anterior. Comprou um balcão semi novo e ingredientes. Para não pagar aluguel, montou a bolaria na garagem de casa e na hora de fazer o bolo usa a própria cozinha. Vende cerca de 120 bolos na semana, por valores entre R$ 10 a R$ 20.  

“Sem um trabalho de carteira assinada, preciso garantir meus direitos e com o MEI tem a cobertura de benefícios do INSS (Instituto Nacional de Seguridade  Social) como auxílio-doença e aposentadoria por invalidez. Ou seja, uma proteção em caso de acidentes”, afirma Gonçalves. “Todo mês pago o boleto”.  

Crédito: Danielle Lobato/Agência MuralAltair vendeu 120 bolos e decidiu seguir no negócio

O número de microempreendedores individuais (MEIs) no país ultrapassou em 2019 a marca de 9 milhões. Somente no estado de São Paulo, há 2,5 milhões de microeempreendedores.

O crescimento no número de MEIs está ligado a dois perfis, afirma o economista Marcelo Lopez, professor de empreendedorismo da USP (Universidade de São Paulo). Um deles são as pessoas que tinham o sonho de mudar de vida e estão insatisfeitas com a rotina dos atuais empregos. O outro são aqueles que identificaram uma boa oportunidade de negócio. 

“Hoje, 30% dos brasileiros empreendem por necessidade e 70% por oportunidade”, comenta. Apesar disso, ele alerta que é preciso cautela. Entre os economistas é comum o pensamento de que um recente empreendedor pode chegar à falência mais cedo. “É preciso ter um pé no chão e não sair gastando todas as economias”, conta Marcelo. 

Parte desses novos empreendedores são na verdade profissionais que não encontraram a opção de uma vaga via CLT (Consolidação das Leis do Trabalho).

Desempregado, o bikeboy Lucas Ferreira, 28, aderiu ao sistema para trabalhar fazendo entregas de bicicleta por meio de aplicativos de delivery. Ele perdeu o emprego numa pizzaria há dois anos, mas ainda almeja voltar ao mercado com carteira assinada. 

Morador do Jardim Kemel, na zona leste, ele conta que chega a pedalar 40 km por dia. “Às vezes dá R$ 50 ou R$ 80 por dia. Mas é muito cansativo. Debaixo de sol ou chuva. Queria mesmo era arrumar um emprego registrado. Daí eu deixava esse trabalho mais para o fim de semana”, diz o entregador.

MEIs (Microempreendedores individuais na Grande São Paulo)
Cidades 2018 2019 Alta %
GUARULHOS 58.522 77.425 32,3
BARUERI 12.210 15.971 30,8
GUARAREMA 1.131 1.472 30,2
MAUÁ 13.906 18.004 29,5
SANTANA DE PARNAIBA 5.124 6.627 29,3
CAIEIRAS 4.100 5.272 28,6
CARAPICUIBA 15.475 19.895 28,6
ITAPEVI 8.049 10.327 28,3
DIADEMA 15.952 20.437 28,1
ITAQUAQUECETUBA 11.157 14.283 28,0
OSASCO 31.281 40.043 28,0
SAO BERNARDO DO CAMPO 34.108 43.618 27,9
COTIA 10.595 13.539 27,8
ARUJA 3.077 3.928 27,7
SANTO ANDRE 30.496 38.927 27,6
TABOAO DA SERRA 12.083 15.416 27,6
FERRAZ DE VASCONCELOS 6.437 8.166 26,9
JANDIRA 4.286 5.423 26,5
SAO CAETANO DO SUL 8.131 10.214 25,6
FRANCISCO MORATO 5.416 6.790 25,4
RIO GRANDE DA SERRA 1.530 1.917 25,3
RIBEIRAO PIRES 4.707 5.879 24,9
SAO PAULO 603.955 754.236 24,9
MOGI DAS CRUZES 19.061 23.793 24,8
SANTA ISABEL 2.154 2.685 24,7
FRANCO DA ROCHA 4.878 6.078 24,6
MAIRIPORA 3.589 4.464 24,4
CAJAMAR 3.204 3.969 23,9
VARGEM GRANDE PAULISTA 2.054 2.532 23,3
POA 5.212 6.418 23,1
EMBU 10.637 13.076 22,9
SUZANO 13.168 16.174 22,8
ITAPECERICA DA SERRA 6.592 8.092 22,8
EMBU-GUACU 2.577 3.150 22,2
PIRAPORA DO BOM JESUS 786 953 21,2
SAO LOURENCO DA SERRA 566 665 17,5
BIRITIBA-MIRIM 1.406 1.629 15,9
SALESOPOLIS 770 887 15,2
JUQUITIBA 1.189 1.340 12,7
Total 979.571 1.233.714 25,9

Há dois anos, Ferreira envia currículos. “Logo que fiquei desempregado, me sugeriram unir o útil ao agradável. Eu amo andar de bike, mas quando se trata de entregas é diferente. Não é fácil”, conta. 

Para entrar no ramo Ferreira foi obrigado a tirar o MEI que garante o registro em aplicativos de entregas que exigem CNPJ para o cadastro de entregador. “É bom porque nesse ramo tem vários acidentes, e pagando todo mês o boleto, garanto meus direitos”, conta. 

Quando começou nesse ramo, o entregador usava a bicicleta, mas há três meses, foi roubado. A única opção foi pegar emprestado a magrela de um amigo.

No momento, ele diz que a meta é conseguir prestar um vestibular na área de administração ou educação física e comprar uma moto para aumentar o número de entregas. Por enquanto, o curso universitário ainda esbarra no financeiro. Por mês, ele tira cerca de R$ 1.500 a R$ 2.000, suficiente apenas para sustentar a casa.

Itaim Paulista, São Paulo

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